Cinema, séries de TV e ocasionalmente, algo sobre música e literatura



domingo, 19 de maio de 2013

INTOCÁVEIS (Intouchables, 2012)



Cotação: ★★★★  Muito Bom

OPOSTOS QUE SE TOCAM


“Intocáveis” é a história da amizade que nasce entre dois homens completamente opostos. Phillipe (François Cluzet) é um aristocrata parisiense, homem rico e culto, que se tornou paraplégico após um acidente. Ele está procurando alguém para ser seu cuidador, e após verificar um grande número de candidatos, Phillipe resolve contratar Driss (Omar Sy), um jovem sem papas na língua, grosseirão, mas também carismático. A empolgante e divertida cena inicial nos mostra que os dois se tornam amigos. Ao longo da projeção, o público acompanha, via flashback, a evolução do relacionamento deles.

Driss (Omar Sy) e Phillipe (François Cluzet)

O filme dos diretores Eric Toledano e Olivier Nakache foi um grande sucesso na França e também no resto do mundo, e é baseado numa história verídica. É um trabalho centrado nas excepcionais performances dos dois atores principais e graças a eles, consegue escapar (quase sempre) das limitações e problemas dos filmes com grandes “lições de vida”.

O aspecto mais fascinante do longa é a exploração que os diretores fazem dos dois universos completamente opostos de Phillipe e Driss. De fato, “Intocáveis” expõe o contraste entre as duas Franças existentes hoje. A de Phillipe é a França refinada, aquele país famoso por valorizar a cultura e pela sofisticação. A de Driss é a França pobre e com problemas sociais, o país dos imigrantes – o personagem é descendente de senegaleses. Driss teve problemas com a lei e quando a história começa, foi recentemente libertado da prisão após cumprir pena por roubo. Mas os diretores de “Intocáveis” acabam vendo a interação entre as duas Franças de forma positiva, mostrando que é possível o entendimento entre pessoas de ambos os mundos.


Afinal, com o tempo e a convivência, os dois personagens passam por mudanças. Driss, embora nunca abandone seu jeito relaxado e irreverente de ver a vida, torna-se um pouco mais refinado – começa até a apreciar pintura. Já Phillipe adquire um pouco da alegria e da ousadia do amigo. É comovente ver, por exemplo, a forma como o milionário observa o jovem dançando na festa de aniversário e contagiando a todos com sua empolgação. Os baseados e os encontros com mulheres arranjados por Driss também ajudam Phillipe a redescobrir a alegria da juventude, perdida após o acidente.

Curtindo a vida...

François Cluzet e Omar Sy estão fantásticos em seus papeis, e trazem a “Intocáveis” a humanidade necessária para evitar que a história seja atrapalhada pelos clichês dramáticos tão comuns nesse tipo de filme. Cluzet encarna perfeitamente um homem cansado da piedade dos outros – por isso mesmo ele afirma ter escolhido Driss, o irreverente jovem não teve pena do milionário – e que acaba sendo sutilmente transformado. Além disso, detalhes pequenos e realistas ajudam a compor o personagem, como a cicatriz de traqueostomia no pescoço do ator e a “dança” realizada por ele apenas com movimentos da cabeça na cena do aniversário. Já Sy é brilhante, divertido e elétrico em cena. Seu personagem se torna um achado, trazendo um bem vindo humor ao projeto.

Omar Sy: Atuação divertida e elétrica

Ao se focar no humor e na interação entre os personagens, os cineastas Toledano e Nakache ignoram o caminho tradicional das lições de vida do cinema. Ao invés de investir no melodrama e buscar lágrimas do espectador, os diretores, em conjunção com seus atores, apostam no riso e na convivência entre Phillipe e Driss, deixando o drama surgir naturalmente a partir daí. Além disso, eles nunca perdem de vista o pano de fundo triste da história: os problemas familiares de Driss, de certa forma, não se resolvem; e a tristeza no olhar de Phillipe ocasionalmente retorna, apesar de todas as mudanças em sua vida. Isso dá ao longa um equilíbrio, fazendo com que “Intocáveis” se torne realmente um trabalho engraçado e tocante.


Ao longo do tempo, vimos tantos filmes apelativos, que buscavam fazer o público chorar à força, que um projeto como “Intocáveis” acaba chamando a atenção por justamente evitar essas armadilhas. O filme não é perfeito (por exemplo, a filha adotiva de Phillipe é um personagem dispensável), e é previsível. Mas conta sua história com honestidade e acredita nos seus personagens, e por isso consegue ser humano e caloroso. Ao final, temos a sensação de ter visto a história de duas pessoas que realmente melhoraram, um pouco, a vida um do outro – e nos fazer acreditar nisso é a maior qualidade do filme.




Disponível em DVD e Blu-ray no Brasil pela Califórnia Filmes.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

KICK-ASS: QUEBRANDO TUDO (Kick-Ass, 2010)



Cotação: ★★★★  Muito Bom

SEM PODERES, MAS NENHUMA RESPONSABILIDADE?


“Por que tanta gente quer ser igual à Paris Hilton, e ninguém quer ser igual ao Homem-Aranha?”. Essa é a pergunta na mente de Dave Lizewski. Dave tem poucos amigos, é um nerd que não se destaca, e é ignorado pelo sexo oposto. Porém esse maluco gosta de histórias em quadrinhos, e num belo dia resolve sair por aí usando uma fantasia esdrúxula. Seu objetivo: combater o crime como o super-herói Kick-Ass.

Dave Lizewski (Aaron Johnson, ao centro), com seus amigos na loja de quadrinhos

Kick-Ass, o novo super-herói da cidade

Claro que, na sua primeira investida contra uma dupla de malfeitores, as coisas não dão muito certo para ele: o coitado quase morre e ainda tem de enfrentar a humilhação de implorar ao paramédico que esconda sua fantasia. No entanto, ele não desiste, e logo Kick-Ass se torna um fenômeno na internet, a ponto de impressionar outros justiceiros mascarados: o determinado Big Daddy e a sua filha, a pequena Hit Girl, criada pelo pai desde criança para se tornar uma máquina de matar. Os três acabam se envolvendo num confronto com o chefão mafioso Frank D’Amico, e embora Kick-Ass seja mais um problema para os seus companheiros do que uma ajuda, ele terá de provar ser um herói de verdade.

Esses são super-heróis pra valer: Big Daddy e Hit Girl

Baseado nos quadrinhos de Mark Millar e John Romita Jr., “Kick-Ass: Quebrando Tudo” é uma divertida e alucinada comédia de ação que, ao mesmo tempo, subverte e homenageia o conceito dos super-heróis, tão em voga no cinema hoje em dia. O diretor britânico Matthew Vaughn – que mais tarde comandaria outro filme baseado em quadrinhos de heróis, o excelente “X-Men: Primeira Classe” (X-Men: First Class, 2011), traz para o filme um estilo criativo e dinâmico. Como resultado, “Kick-Ass”, embora não seja o primeiro filme a explorar o tema “o que aconteceria se super-heróis existissem no mundo real?”, é o mais bem sucedido deles.

Matthew Vaughn (à esquerda), nas filmagens

De cara, o longa inicia com uma narração em off do protagonista (vivido à perfeição por Aaron Johnson) e cenas que fazem uma eficiente paródia de “Homem-Aranha” (Spider-Man, 2002), de Sam Raimi. Dave Lizewski é basicamente o Peter Parker, mas ele nunca será mordido por uma aranha radioativa nem terá um parente assassinado. Ele não estava vivendo, apenas “existia”, mas tem o heroísmo dentro de si e está cansado do seu cotidiano e da apatia das pessoas. Criar o seu alter-ego traz a ele uma determinação inédita até então.

Kick-Ass em ação

O filme o apresenta rapidamente numa divertida sequência de abertura, e a edição mantém seu ritmo ágil até o final. A fotografia abusa das cores, num criativo trabalho que remete à estética das histórias em quadrinhos. O longa ainda usa intertítulos típicos das HQs, como “Enquanto isso...”, e uma sequência posterior explicando a origem de Big Daddy é mostrada por meio de desenhos.

Tecnicamente, “Kick-Ass” é brilhante, mas os personagens – e os atores que lhes dão vida – são a verdadeira alma do projeto. Taylor é brilhante, assim como os vilões: D’Amico dá a Mark Strong a oportunidade de criar mais um malvado para a sua galeria, mas este é um pouco mais divertido que os anteriores. E Christopher Mintz-Plasse é hilariante como o filho de D’Amico, Chris, que embarca na onda e se torna o aspirante a herói Red Mist – com direito a um “Mistmóvel”. Nicolas Cage está ótimo como o alter-ego do Big Daddy, o ex-policial Damon, mas quando veste a fantasia do herói – claramente inspirada na do Batman – o excêntrico ator passa a dizer suas falas com umas pausas estranhas... Bem, hoje em dia nos acostumamos às esquisitices de Cage, e ele não chega a comprometer. E a maior interpretação do filme é a da jovem Chloë Grace-Moretz, fantástica no papel de Hit Girl. A personagem é um achado, responsável por trazer ao projeto uma atitude politicamente incorreta – afinal, não é todo dia que se vê uma garotinha de 11 anos fanática por facas e armas, e capaz de derrotar grandalhões com extrema violência. A violência, ora caricata ora realista, é outro elemento a diferenciar “Kick-Ass” do tradicional longa de super-herói.

Os vilões: Frank D'Amico (Mark Strong) e seu filho, o Red Mist (Christopher Mintz-Plasse)

Nicolas Cage: Excêntrico, mas divertido

Chloë Grace-Moretz como Hit Girl: personagem politicamente incorreta

Nas sequências de ação, Matthew Vaughn homenageia John Woo e Sergio Leone – a trilha de “Por uns Dólares a Mais” (Per qualche dollaro in più, 1965), é ouvida em determinado momento. O diretor joga no filme influências cinematográficas metalinguísticas, mas também homenageia a estética dos games – o tiroteio em primeira pessoa – e o material fonte, os quadrinhos. “Kick-Ass” zomba dos clichês desse tipo de história, mas ao mesmo tempo reconhece o seu valor e a forma como as figuras heroicas podem nos inspirar e nos fornecer parâmetros de certo ou errado.


Não que Vaughn não deixe de ver o mito do herói com um pouco de ironia – a certa altura da história, Dave arranja uma namorada e, curiosamente, quando começa a transar deixa o heroísmo de lado (um sutil comentário a respeito da sexualidade desses personagens). O vigilantismo do personagem também cria mais problemas do que resolve. Porém, quando vemos Dave dizer a um grupo de agressores: “Três idiotas espancando um cara enquanto todo mundo assiste, e você pergunta o que há de errado comigo?”, entendemos aí a essência do conceito de super-heróis. “Kick-Ass” nos mostra um protagonista ridículo numa situação absurda e engraçada, mas junto com ele surge também o desejo de mostrar o potencial para heroísmo dentro de nós.

Só espera-se que, quando esse herói aflorar, nós sejamos capazes de conceber uma fantasia mais legal.



Disponível em DVD e Blu-ray no Brasil pela Universal.